terça-feira, 13 de outubro de 2009

E o que vai ser agora se tudo em mim for silêncio?

sábado, 3 de outubro de 2009

Para falar no ouvido da canção

Um arrepio.

Conheci tarde a voz de Mercedes. Como acalento de uma amiga, a força de suas canções e suavidade de seu espírito chegaram aos meus ouvidos. Mais que qualquer conforto ou palavra de consolo, a voz de Mercedes me caiu como um tapa na cara. Seu cantar indiscreto embrenhou-se em meus ouvidos, assim, como uma pancada, atravessou o corpo, riscou a pele, arrepiando os pelos e me saindo pelos olhos, diamante em lágrimas. Não é preciso muito para sentir a força dessas canções transformar suas sensações. Dispersa pelo ar, a voz de Mercedes provoca um susto em quem a escuta pela primeira vez. Não vou mentir, não foi confortável ouvir Mercedes me atacar em versos, arranquei forças de mim e levantei. Poucos têm a força de permitir que o sol te acaricie, deixando o ouvido à canção, largando de lado suas penas, suas pedras, é de poucos, a sorte de Carito. Foi minha.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Decisão

Vou falar assim e assado, me esconder por trás das portas, as janelas sempre abertas, pra não sei quando soprar o vento. Vou esperar chegar, em versos enviesados, os pensamentos sãos daqueles que têm coragem. Gritar pra quê? O que a gente quer mesmo diz baixinho, pra ninguém ouvir. Assim, assim, vou escrever sei lá o quê, e mandar a poesia envolta de bola de sabão. Vou atingir qualquer ouvido, disperso em viagens mórbidas aos mundos ilusórios, com meu alarido – ou não. Para fugir de não sei o quê, vou ler as letras tortas, arrancar da seiva as certezas que têm quem quer que seja...talvez.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Pai

A pequena se olhava no espelho e via a cara dele, assim, estampada em traços femininos. Sem dó, ela rasgava sua forma, ignorava seus traços e assistia a imagem dele, sobreposta à sua. Aprendeu a gostar de arte, aguçou seu olfato para a poesia e saiu por aí cheirando todo lirismo comum das coisas corriqueiras...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Eu-nu

Caio fez abrir a carne
Ver jorrou o sangue

Rasguei minha carne para entender a sensação. Interpretei, bem cuidadosamente, o texto que se escrevia em vermelho no piso do quarto. Usei de todos os recursos para decodificar o sentido de me manter coberto por toda essa carne. Aos poucos, cortei minha pele, abri meu corpo e comecei a me dividir. Coloquei lado a lado esses órgãos pingando vida, alguns ainda em movimento, e listei todo e qualquer torpor que eles me causavam. Organizei, nas gavetas, as partes, superfícies e pontas e pendurei, num cabide, o tronco vazio por dentro. A pele, debrucei sobre a janela, deixei voar minha bandeira. A cabeça, separada do resto, coloquei sobre a estante, inteira. De lá, permaneci estático, observando o cenário vermelho que havia criado. As gavetas abertas, as portas do guarda-roupa escancaradas, o chão molhado de mim.

Sorri com tranquilidade por não querer me vestir.

sábado, 9 de maio de 2009

da língua do mar

Para acalmar o que ferve por dentro, é preciso ouvir a voz de quem grita seu nome de quase 500 km de distância. É preciso fechar os olhos e ouvir atento àquele que te acarinha com uma lenta composição de acalento. Para toda fragilidade, é preciso retorno àquilo que te protege, um sentimento de infância impulsionando qualquer vontade de riso. É preciso sensibilidade para acolher o toque suave na pele, trazido pelo vento. É preciso atenção para ouvir a poesia de quem te sopra um canto, sentado na areia,
deixando o mar engolir sua saudade.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

dois pra lá, dois pra cá

me deixa olhar seu olho
sem chuva nenhuma
só riso
jabuticabas girando
um rodopio imenso
em contraste com tanto verde

era música que tocava
tiq tiq tum
tiq tiq tum
como é que pode achar que Iris não é viva?
é vida sim
e dança

sábado, 25 de abril de 2009

Devoção


A órdem era: três pedidos
Parei pra pensar e me perdi...
Desejo que tive foi de
"voltar pra casa do rei de Angola"
Dançar meu corpo com toda batida
de som, de pé, de palma
atabaque, pandeiro, agogô e berimbau
Desejo que tive foi de ouvir a voz forte
de quem me canta proteção
Parar o tempo pra ver meu Mestre guerreiro
cantar ladainha e tocar o Gunga
Saudade que tive foi de sujar os pés do axé
no asfalto da rua
E lavar meu corpo com a luz que vinha da Lua

..quando, quebrando o silêncio, um berro:
Salve Jorge!

terça-feira, 10 de março de 2009

Amar'elo

Havia sido hipnotizada por aquelas palavras, quase sem perceber. O transe fora interrompido naquele instante em que eu, isolada e distante do mundo, mergulhada naquelas palavras, acordei com o som inquieto e desesperador de um bater de asas. Ao meu lado, bem perto de mim, ela se debatia contra o vidro. Naquele espaço, que habitava uma centena de mundos, espanto! Nunca imaginei presenciar um bater de asas desesperado bem ali, ao meu lado e externo a mim. Suas marcas eram de um amarelo vivo, que afugentava aquela alegria menina, amarrado ao marrom grosseiro do resto do corpo. Delicadeza em contraste ao desengonço. Por um momento quis ajudá-la. Pegar, com minhas mãos, seu corpo inseguro e libertá-la onde, mais perto, encontrasse o que julgava ser liberdade, para ela. Mas hesitei. Contive a audácia e retornei ao refúgio daquelas palavras. Talvez ela precisasse disso. E depois, bem depois, sobrevoaria com calma a biblioteca até alcançar a liberdade que procurava.

Quis que ela não tivesse desistido ao perceber o silêncio.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Cicatriz

Eu sei que disse que prefiro a chuva, mas agora, quero o sol.
Mas só agora, que é pra sentir seus fios arrancando, da pele minha, as manchas que guardo. Nas marcas que esse tempo deixou, nada de manha, nada de meu, prefiro extirpar-me de mim, se assim sou, lançar fora a casca. Quero riscar o rosto com os feixes de luz que me virão do sol. Quero mesmo é correr na areia, molhar a barra da saia na água do mar, sozinha, assim, só pra satisfazer essa vontade que me veio. Me expor à imensidão de um azul barreado, trazido de lá, de lá de longe.

É que essas Minas me encantam, não fosse a distância do Mar. Quero mesmo é ser arrastada pela água salgada, ter a pele marcada por outras dimensões, deixar faltar o fôlego, ir longe, bem longe daqui. Bem perto de onde os fios arredios do sol me marquem, pra sumir de mim as marcas que esse tempo deixou.